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Gentileza gera gentileza. Será?

  • Foto do escritor: Leo Xavier
    Leo Xavier
  • 17 de dez. de 2025
  • 2 min de leitura

Ainda que se repita essa frase como quem repisa um antigo mantra, quase automático, confesso que a cada dia ela soa mais como uma pergunta desconfortável do que como uma certeza compartilhada, porque algo essencial parece ter se perdido na pressa dos tempos atuais, na lógica do atendimento açodado, na normalização do descaso travestido de rotina. 

Na última semana, presenciei uma cena tão corriqueira quanto reveladora em uma loja de shopping, quando uma cliente, com paciência rara e educação exemplar, tentava resolver um problema legítimo, sobre uma compra realizada. Falava com cuidado, escolhia as palavras e demonstrava respeito, enquanto do outro lado do balcão uma jovem vendedora, visivelmente desinteressada, agia como se estivesse prestando um favor — na verdade cumpria apenas o básico de sua função, atender a quem sustenta o próprio negócio. 

O que mais me incomodava, entretanto, não era o erro em si, pois erros acontecem, mas a ausência completa de empatia, a frieza no olhar, o tom burocrático e negligente que desconsiderava a pessoa ali presente, sua história, seu tempo e seu direito de ser tratada com distinção, cortesia e atenção, como qualquer cliente merece, o que acabou despertando em mim uma indignação difícil de conter. 

Intervi, talvez movido mais pelo cansaço coletivo do que pela cena isolada, lembrando à vendedora que o respeito não é um diferencial, porém uma obrigação; que empatia não é gentileza extra, é condição mínima de convivência; e que lidar com pessoas exige algo além de procedimentos, exige humanidade, sensibilidade e noção de lugar. 

Ao sair da loja, fiquei com aquela sensação amarga de quem testemunha algo maior do que um mau atendimento, porque o episódio parecia apenas o sintoma de uma sociedade que desaprendeu a se olhar; onde cada um se protege em sua própria bolha; onde o outro virou incômodo, obstáculo ou número; e onde a cortesia passou a ser vista quase como fraqueza ou perda de tempo. 

Vivemos tempos em que o individualismo ganhou status de virtude; em que o imediatismo sufoca o cuidado; em que a educação virou exceção; e onde se naturaliza o tratamento ríspido como se fosse parte do pacote moderno da vida urbana. Afinal, é cada um por si e Deus por todos, como se propala em um misto de resignação e cinismo.  

Diante disso, a pergunta permanece ecoando: ainda faz sentido acreditar que gentileza gera gentileza? Ou estamos a viver um tempo em que ela resiste apenas como ato de rebeldia silenciosa, quase um gesto político, praticado por quem se recusa a aceitar que o mundo precise ser duro para funcionar. 

Talvez a gentileza não gere gentileza de forma imediata, ou não transforme o outro na hora, contudo certamente preserva algo fundamental em quem a pratica, porque ao agir com respeito e empatia, mesmo quando o ambiente parece hostil, reafirmamos que ainda há um jeito melhor de conviver, de trabalhar e de existir. 

E deve ser justamente isso — insistir na gentileza, mesmo quando ela parece não retornar, não por ingenuidade, mas por convicção, porque renunciar a ela seria admitir que já nos rendemos completamente a um mundo que anda veloz demais, todavia olha pouco, escuta ainda menos e se esqueceu que, por trás de balcões, crachás e reclamações, continuam existindo as pessoas.  Léo Mauro Xavier Filho



 
 
 

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