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O peso da vida

  • Foto do escritor: Leo Xavier
    Leo Xavier
  • há 2 dias
  • 3 min de leitura

Tenho quase sessenta e seis anos e talvez, pela primeira vez, esteja começando a compreender o verdadeiro peso da vida. É curioso perceber isso justamente agora, depois de uma trajetória em que, olhando de fora, eu deveria apenas agradecer, como de fato agradeço. Tenho saúde, família, filhos, netos, amigos e nunca me faltou o necessário para viver com dignidade. A vida, sob muitos aspectos, foi profundamente generosa comigo, pois posso dizer que tenho sido um homem privilegiado, material e emocionalmente.

            Mas há dias em que o coração aperta de maneira silenciosa, em que o olhar fixa o horizonte, e fico ali pensativo e com uma certa dose de melancolia. Surge uma angústia difícil de explicar, um sentimento que mistura preocupação, insegurança e uma estranha sensação de fragilidade diante do futuro. O medo de que algo não dê certo, o receio das intercorrências inevitáveis da vida, o peso do imponderável. Como se, depois de tantos anos construindo caminhos, combatendo o bom combate, ainda existisse dentro de mim um homem inseguro, tentando compreender o sentido de tudo isso.

       E então me pego pensando: afinal, por que e para que vivemos?

            Esses dias, minha netinha passou a mão na minha cabeça e disse, com a doce sinceridade de uma criança: “Vovô, você está careca!” Sorri e respondi: “O vovô está ficando velhinho.” Ela então perguntou: “Você vai virar uma estrelinha?” Respondi que sim. Em seguida veio outra pergunta, daquelas que atravessam a alma sem pedir licença: “Vai demorar muito?” Por alguns segundos fiquei em silêncio, talvez porque nunca estejamos preparados para certas verdades, quando elas vêm da pureza de uma criança. Respondi apenas: “Acho que não.” E então ela concluiu, de maneira simples e absolutamente desconcertante: “Então você tem que aproveitar, vovô.”

            Desde aquele instante fiquei pensativo. Porque talvez exista nas crianças uma sabedoria que os adultos desaprendem ao longo da vida. Passamos anos preocupados em construir patrimônio, empresas, estabilidade, segurança e reconhecimento. E tudo isso tem o seu valor, pois construir também é uma forma de amar, de proteger e de cuidar daqueles que caminham ao nosso lado. Chega um momento, porém, em que a alma começa a fazer outro tipo de contabilidade.

            Ela deixa de perguntar apenas o quanto conquistamos e começa a perguntar o quanto realmente vivemos. Quantas vezes desaceleramos para ouvir quem amamos, quantas conversas não adiamos, quantos abraços demos sem pressa, quantos momentos contemplamos sem a ansiedade do relógio. Aos poucos vamos percebendo que a vida não se resume às metas alcançadas e também aos instantes simples que, quase sempre, passam despercebidos enquanto estamos ocupados demais tentando controlar o amanhã.

            É possível que o peso maior da vida esteja nas responsabilidades que carregamos, contudo também é certo que esse fardo reside na dificuldade em aceitar que não temos a capacidade de dominar por inteiro os acontecimentos de nossa existência. E, principalmente, que tudo é passageiro. Que o tempo diminui o passo, que o corpo muda, que os cabelos caem, que os netos crescem e que, lentamente, começamos a entender que viver nunca foi sobre controlar tudo, mas sobre atravessar a existência com coragem, fé e resiliência, aceitando nossos limites, os eventuais reveses que a vida nos traz, buscando o equilíbrio entre a calma e a pressa — e agradecendo o dom de viver.

            Hoje, olhando para trás, percebo que a vida não me deve nada; pelo contrário, ela foi generosa além do que eu poderia imaginar. Assim, percebo que o grande desafio da maturidade seja justamente aprender a carregar a vida sem permitir que ela pese demais dentro do coração.

            E, numa reflexão serena, concluo que minha netinha deva ter razão: ainda há tempo para aproveitar; para viver um pouco mais devagar, amar melhor, estar mais presente e olhar para frente, sem medo do amanhã. Porque, no fim, envelhecer é apenas compreender que o sentido da vida nunca esteve na chegada — ele sempre esteve, silenciosamente, presente durante o caminho. Léo Mauro Xavier Filho

 


 
 
 

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