Ainda que seja de noite
- Leo Xavier
- 11 de nov. de 2025
- 2 min de leitura
“Eu conheço bem a fonte
Que desce daquele monte
Ainda que seja de noite
Nessa fonte está escondida
O segredo dessa vida
Ainda que seja de noite
"Êta" fonte mais estranha
Que desce pela montanha
Ainda que seja de noite.
Sei que não podia ser mais bela
Que os céus e a terra, bebem dela
Ainda que seja de noite.
Sei que são caudalosas as correntes
Que regam os céus, infernos
Regam gentes, ainda que seja de noite.
Aqui se está chamando as criaturas
Que desta água se fartam mesmo
às escuras
ainda que seja de noite
(...)
Trecho de Água Viva, Raul Seixas (1974)
Ainda que seja de noite
Infelizmente não sou daqueles homens virtuosos, com inspiração própria, a ponto de sair escrevendo um texto, uma reflexão, assim do nada, pois acabo, invariavelmente, tendo que me inspirar em algo para poder refletir, escrever. A música é uma dessas fontes de inspiração, pois os músicos, os compositores têm o condão de transformar em música os poemas, as crônicas e as situações que parecem vulgares. É o caso de Raul Seixas, com a canção ‘Água Viva’, cujas estrofes estão acima destacadas, cuja inspiração foi o poema de São João da Cruz — ‘Cântico Espiritual’, que fala de uma fonte que desce do monte e continua a jorrar mesmo na noite escura.
Escutei-a pela primeira vez, na casa de um padre, grande amigo, e fiquei me perguntando: quem de nós já não atravessou uma noite escura na vida cotidiana? Noites com dor na alma, de decisões incertas, de ausências, de vazio? Porém, mesmo quando a noite insiste em dizer que nada faz sentido, o coração pode se abrir para esse fluxo escondido, para essa estranha fonte d’água, que rega céus, infernos e que rega e sustenta a existência. Mas afinal, que fonte é essa, de onde ela brota, de onde vem, uma fonte que desce do monte e continua a jorrar mesmo na noite escura das nossas vidas?
Essa imagem mística revela algo profundo. Existe em nós e no mundo uma nascente escondida, silenciosa, que não depende das luzes do dia para fluir. É a fonte da vida, da esperança e da fé, onde a alma humana busca por sentido, plenitude e felicidade.
Essa água misteriosa rega céus, terras, infernos e gente. Chega a todos, sem distinção. Alimenta tanto os que vivem na abundância como aqueles que sobrevivem no limite. O convite é simples: beber, mesmo sem entender, mesmo às escuras.
Talvez a lição maior seja essa: aprender a confiar na fonte quando os olhos não veem. Porque é nessa confiança que a vida se renova. É no silêncio da noite que descobrimos a coragem de continuar. É na ausência de respostas fáceis que nasce uma fé amadurecida
Léo Mauro Xavier Filho






Uma letra inspiradora, digna da reflexão que produziste, Léo. Muito bom!