top of page

Carrego o que fiz, e aprendi com o tempo, a viver com isso

  • Foto do escritor: Leo Xavier
    Leo Xavier
  • 1 de abr.
  • 3 min de leitura

Há um tipo de reflexão que só chega com o tempo. Não é aquela que nasce da teoria, ou da leitura apressada, mas da vida vivida, com suas escolhas, acertos — e, principalmente, seus erros. Talvez seja essa uma das mais difíceis: olhar para trás com lucidez suficiente para reconhecer que, em muitos momentos, poderíamos ter feito diferente.

            Eu poderia ter feito diferente.

      Não apenas em grandes decisões, que marcam trajetórias, mas nas minúcias e pormenores, no tom de voz, na palavra pronunciada fora de hora, na ausência — quando a presença era o que mais importava — nas atitudes e decisões. Com o tempo, percebemos que estes detalhes são os que mais nos maculam.

            E se há algo que a maturidade ensina (vale lembrar que tenho 65 anos) é sobre o erro terminar quando acontece. Ele segue vivo, atravessa relações, projeta-se em consequências que não controlamos mais. Justamente aí está o peso maior: não no erro em si, porém no alcance que ele teve, especialmente quando atingiu outras pessoas. Durante muito tempo, tentei revisitar essas situações como quem busca uma forma de reorganizar o passado. Como se, ao compreender melhor, fosse possível, de alguma maneira, suavizar o que foi vivido. Contudo, há uma verdade simples, quase dura, que se impõe com o tempo: o passado não se altera. Ele permanece como foi, intocado, indiferente às nossas tentativas de reconstrução.

         E aceitar isso não é um gesto de resignação, é símbolo de maturidade, de crescimento pessoal e por que não, de humildade, ao aceitar os deslizes, desvios e erros. Porque, a partir desse ponto, a vida deixa de girar em torno do “e se” e passa a exigir outra postura, mais difícil e mais verdadeira: o que eu faço com isso agora? Essa mudança de eixo é silenciosa, talvez leve uma vida, e costuma transformar tudo. Ela tira-nos da culpa que paralisa e coloca-nos diante da responsabilidade que move.

           Não se trata de esquecer, nem de minimizar ou menos ainda de querer justificar. Trata de inteirar-se, aceitando as limitações e reconhecendo que aquilo que fomos, em determinado momento, já não nos define por completo. Como escreveu o apóstolo Paulo, “quando eu era menino, falava como menino, pensava como menino; mas, logo que cheguei a ser homem, acabei com as coisas de menino”. Há, nessa passagem, uma ideia poderosa de transformação que não apaga o passado, mas o supera pela consciência.

          O verdadeiro desafio é conviver com as consequências que derivaram do erro, visto que elas não desaparecem por decisão nossa, tampouco se ajustam ao nosso tempo interno. Permanecem, às vezes silenciosas, às vezes presentes, lembrando-nos de que a vida é feita de escolhas que deixam rastros.

          E, ainda assim, é preciso seguir.

          Seguir não como quem ignora, mas como quem aprende. Não como quem se absolve de forma superficial, e sim como quem compreende que carregar culpa indefinidamente não repara o que foi feito, tampouco devolve ao outro aquilo que foi perdido. Ao contrário, apenas nos mantém presos a um ponto da história que já não pode ser alterado.

       O que pode ser transformado, e essa é a parte mais exigente, é a forma como viveremos daqui para frente. Com mais cuidado nas palavras, mais presença nos momentos que importam e mais consciência de que cada atitude tem um alcance só percebido depois. Há, nesse processo, uma espécie de reconciliação silenciosa consigo. Não a reconciliação fácil, que apaga as tensões, mas aquela mais profunda, que aceita a própria imperfeição sem permitir que ela se torne destino.

          Hoje entendo que isso não precisa ser uma sentença. Pode ser, ao contrário, um ponto de partida e o lembrete permanente de que a vida não exige perfeição. Exige-nos evolução. Afinal, se não é possível recuar no tempo e corrigir o erro, sempre temos a chance de um recomeço e, sobretudo, a escolha por um novo fim. É o que pode nos devolver alguma paz: não a ausência de erros, mas a certeza de que eles não foram em vão.

Eu carrego o que fiz.

Léo Mauro Xavier Filho

 

 

 
 
 

Comentários

Avaliado com 0 de 5 estrelas.
Ainda sem avaliações

Adicione uma avaliação
  • Ícone do Facebook Branco
  • Ícone do Twitter Branco

© 2035 por AsHoras. Orgulhosamente criado com Wix.com

bottom of page