A Morte e a Arte de viver
- Leo Xavier
- há 2 dias
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Quando a consciência da finitude nos ensina a valorizar o tempo, os afetos e a beleza da vida cotidiana
Confesso que, aos sessenta e seis anos, a morte passou a ocupar um lugar diferente nos meus pensamentos. Não porque eu viva preocupado com ela, muito menos porque tenha perdido a alegria de viver. Pelo contrário. Talvez seja justamente nesta fase da vida que eu tenha aprendido a valorizar mais cada dia, cada encontro e cada momento que a existência nos oferece.
Quando chegamos a uma determinada idade, começamos a perceber com mais clareza a passagem do tempo. Os filhos crescem, os netos chegam, os cabelos embranquecem ou rareiam e os encontros com amigos e familiares já não acontecem apenas em festas e comemorações. Muitas vezes nos encontramos também em despedidas.
Essa não é uma constatação triste. É apenas a realidade da vida.
Quando jovens, temos a estranha sensação de que o tempo é inesgotável. Acreditamos que haverá sempre um amanhã para pedir desculpas, para retomar amizades, para realizar sonhos ou simplesmente para dizer às pessoas que as amamos. A vida, entretanto, não nos dá garantias e a única certeza que recebemos ao nascer é que um dia partiremos. E, pouco a pouco, começamos a perceber algo que sempre esteve diante de nós: a vida tem prazo, somos finitos.
Curiosamente, essa constatação não me entristece — pelo contrário, ela me desperta. Porque quando entendemos que somos finitos, começamos a enxergar melhor o que realmente importa. Neste estágio da vida, os encontros nos velórios tornam-se mais frequentes do que nas festas. Amigos, parentes e entes queridos partem e pessoas que dividiram a caminhada conosco deixam de ocupar uma cadeira à mesa, um lugar na sala ou um espaço nas nossas rotinas. E é natural que a tristeza apareça. O luto é uma das formas de o amor se manifestar. Quem sente a ausência é porque um dia teve a felicidade da presença.
Mas a morte que nos faz chorar também deve nos fazer refletir.
Ela nos pergunta, em silêncio: você está vivendo ou apenas existindo? Está aproveitando o tempo que lhe foi dado? Está cuidando das pessoas que ama? Está cuidando de si? Está encontrando beleza nas pequenas coisas?
Tenho aprendido que a vida não precisa ser perfeita para ser boa, mas ela deve ser simples, não necessariamente no ter, mas no ser.
Um café compartilhado, uma conversa sem pressa, uma caminhada, um abraço, uma tarde com os netos, um dia de trabalho produtivo ou um momento de contemplação diante do mar — dá sentido a existência. Há uma riqueza imensa escondida nas coisas aparentemente simples e comuns. Aprendi que não precisamos concordar com todos para respeitar todos. Nem toda divergência precisa virar conflito, como nem toda diferença precisa virar inimizade. A maturidade nos ensina que a paz vale mais do que a necessidade permanente de ter razão. Costumo dizer, nesses tempos vividos, “não quero ter razão, quero ser feliz”.
Todos, sem exceção, são passageiros do tempo, onde a consciência da finitude nos convida a equilibrar o ter e o ser. Os bens materiais têm seu valor, e é importante e necessário trabalhar, prosperar e conquistar conforto para si e para a família. Chega um momento, contudo, em que percebemos que algumas das maiores riquezas não cabem numa conta bancária. Elas estão nos relacionamentos que cultivamos, na reputação que construímos, nas amizades que preservamos, no amor que oferecemos e na serenidade com que atravessamos os dias. Afinal, o que se leva da vida é a vida que se leva.
Hoje compreendo que a morte não é apenas o fim de uma jornada. Ela é também uma lembrança permanente de que a vida precisa ser bem vivida enquanto acontece.
Se a consciência da morte nos ajudar a sermos mais gentis, mais generosos, mais equilibrados e mais sensíveis ao sofrimento dos outros, então ela terá cumprido uma das suas mais nobres missões. A finitude não diminui a vida, é ela que dá valor a cada instante. E talvez a verdadeira sabedoria esteja nisso: não viver esperando a morte, mas viver de tal forma que, quando ela chegar, encontre uma vida plenamente vivida.
E finalizo com uma frase de São Paulo Apóstolo, que muito me anima a seguir em frente e que espero poder falar no meu último dia: “combati o bom combate, encerrei minha carreira, guardei a fé”.
Léo Mauro Xavier Filho

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