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A ausência que nos habita

  • Foto do escritor: Leo Xavier
    Leo Xavier
  • 2 de set. de 2025
  • 2 min de leitura

Certa ocasião, estava assistindo uma entrevista com a cantora Ana Carolina, e, em dado momento, a entrevistadora a perguntou como era lidar com a própria Ana Carolina, expectativas, medos e angústias. A cantora admitiu ser muito difícil se relacionar com tudo isso e citou a frase de Camille Claudel: “Existe sempre uma coisa ausente que me atormenta”. Acabou a entrevista, e fiquei pensando sobre a dita frase, pois há momentos na minha vida em que uma ausência ou um vazio se faz presente, o que de alguma maneira me atormenta, me entristece e me traz melancolia.

            O pensamento mencionado ecoa como quem põe palavras naquilo que não sabemos dizer. Todos, em algum momento da vida, sentimos esse vazio sutil, não tão claro a ponto de sabermos seu nome, porém presente o bastante para nos inquietar. Claudel, escultora francesa, de talento visceral e vida marcada por tormentos, silêncios, amores, foi amante de Rodin, e nos oferece aqui uma chave para entender não só sua dor íntima, mas a angústia universal e coletiva, dos simples humanos, daquilo que nos falta, do desabitado da alma, que muitas vezes, preenche nosso ser.

            Talvez esses sentimentos, tentando buscar uma resposta, pode ser o que não foi vivido, alguém que ficou para trás, um sonho interrompido, um silêncio que machuca, enfim, essa é uma ausência privada, muito pessoal, mas com certeza, universal. Não há existência humana que não conheça esses alheamentos.

            Por vezes, aparecem como uma saudade de origem incerta; noutras, como um incômodo leve, mas constante, que ronda os bons momentos com uma sombra discreta, uma ação, ou até mesmo uma omissão, cuja lembrança insiste em ficar.

            Todavia, queiramos crer que há uma potência na ausência. É ela que nos move, que nos catapulta em direção a um amanhã sereno e o mais pleno possível. É no espaço do que falta que criamos, é na lacuna que nasce o impulso de seguir. Uma ausência pode doer, sim, contudo também pode nos fazer acordar e nos encher de esperança.

            Vivemos num tempo de excessos e ruídos. A ausência nos convida ao oposto: escuta, recolhimento, profundidade. É no vazio que realmente nos escutamos, e talvez seja esse o maior tormento: não a ausência em si, mas o que ela revela sobre nós.

            Nem sempre é possível preencher o que falta, é possível, no entanto, aprender a caminhar com essa companhia invisível. A ausência, quando bem acolhida, pode até deixar de ser uma aflição, se convertendo em atitude, força e coragem. Talvez seja por isso que alguns constroem pontes em vez de muros. Porque intuem que, do outro lado da ausência, haja algo surpreendente: um reencontro, uma revelação, uma paz que não vem da completude, mas da aceitação de que ser inteiro nunca é estar completo.

            Porque, no fim, talvez a inteireza não esteja em ter tudo, porém em aceitar que algo sempre há de faltar, e que mesmo assim, ou justamente por isso, seguimos sendo inteiros.

            E, quem sabe? —o segredo seja esse: aprender a conviver com o que falta, sem deixar que isso nos paralise. Transformar o que nos atormenta em poesia, em gesto, em escuta, em abraço. Porque viver, no fundo, é saber andar com as ausências sem perder a presença de si!


 
 
 

4 comentários

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Carlos Stegemann
03 de set. de 2025
Avaliado com 5 de 5 estrelas.

Essa condição acompanha o ser humano desde quando adquiriu consciência, em era remota de sua existência. O autor é feliz por assinalar que podemos convertê-la em senso crítico e, eventualmente, em algo produtivo, capaz de ampliar a qualidade do que pensamos, sentimos e, sobretudo, o que fazemos.

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Convidado:
03 de set. de 2025
Avaliado com 5 de 5 estrelas.

ótima reflexão

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Norma
02 de set. de 2025
Avaliado com 5 de 5 estrelas.

Lindo muito bom sei o que é isso

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Marina
02 de set. de 2025
Avaliado com 5 de 5 estrelas.

Muito lindo e bem escrito, adorei =)

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