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Quando a liberdade falta com o respeito

  • Foto do escritor: Leo Xavier
    Leo Xavier
  • há 12 horas
  • 3 min de leitura

A verdadeira liberdade não precisa humilhar para existir

            Não sou dado à polêmica, sempre preferi o diálogo sereno à exaltação, a escuta atenta ao grito. Acredito profundamente que cada pessoa tem o direito de conduzir a própria vida como melhor entender. Escolhas são pessoais, visões de mundo nascem da história, das experiências, das dores e das convicções de cada um. O que sempre me guiou foi a certeza de que a convivência só é possível quando o respeito é maior do que a discordância.

            Há momentos, contudo, em que a perplexidade fala mais alto, não por divergência ideológica, tampouco por discordância política, mas sim pela sensação de que o limite do respeito foi ultrapassado. O carnaval sempre foi espaço de crítica social, irreverência, exagero e arte. O desfile é palco de metáforas, provocações e denúncias. Faz parte da tradição cultural brasileira. A crítica é legítima, onde o debate é saudável e a pluralidade é uma riqueza. O problema não é criticar, não é propor reflexão, não é dialogar é sim ridicularizar, debochar e atacar.

            Quando valores caros a milhões de brasileiros, como a família em sua configuração tradicional, são tratados com desdém ou caricatura ofensiva, o debate deixa de ser cultural e passa a ser desrespeitoso. Não se trata de impor um modelo único. Trata-se de reconhecer que existem pessoas que vivem, acreditam e organizam suas vidas de maneira tradicional, conservadora, como no caso da família, da fé e de outros valores sociais e culturais e por isso, merecem respeito e consideração. Em nome da liberdade, às vezes pratica-se a intolerância. Clama-se por diversidade, porém apenas a diversidade que confirma a própria visão é aceita. Fala-se em democracia, todavia a verdadeira democracia exige convivência com o contraditório. Infelizmente, há um tipo de pessoa que fala em liberdade, em estado democrático de direito, mas somente quando a convém, quando atende os seus interesses, sua maneira de pensar. Quando se trata do direito do outro, daquele que pensa diferente, ela cria narrativas que visam não só desconstruir esse que pensa diferente — e, não satisfeita, tenta destruí-lo.

            Liberdade que não admite o outro não é liberdade, é hegemonia disfarçada.

            O Brasil sempre foi plural. Cabem muitas formas de família, muitas crenças e diferentes estilos de vida. O que não cabe é o escárnio como método de afirmação cultural ou política. Respeitar não significa concordar, mas sim reconhecer a dignidade e a posição do outro. Quando o debate público passa a ser conduzido pela estética do choque, pela grosseria e pela intenção de provocar repulsa, como o que ocorreu no carnaval do Rio de Janeiro, em determinada escola de samba, algo se rompe no tecido social. Não é apenas uma questão moral, é uma questão de convivência democrática e maturidade institucional.

            A sociedade brasileira parece cansada do grito, da imposição e da sensação de que sempre há alguém disposto a destruir símbolos para afirmar superioridade moral. O país não está doente porque pensa diferente. Está adoecido porque desaprendeu a discordar com elegância, com educação. Talvez a verdadeira revolução cultural que precisamos não esteja na avenida nem nos discursos inflamados. Talvez esteja em algo mais simples e mais exigente: aprender a defender convicções sem tentar aniquilar as do outro.

            O Brasil não precisa de mais escândalo, mas de maturidade democrática.

            E maturidade começa quando a liberdade nunca se afasta do respeito.


 
 
 

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