Cíntia e Manuela: duas mulheres e dois caminhos, um só destino
- Leo Xavier
- 28 de out. de 2025
- 2 min de leitura
Há tempos eu não assistia a GloboNews, perdi meu interesse em razão da editorial adotada, mas esse não é o tema dessa reflexão. Estava eu brincando dia desses com o controle da TV, passei pelo canal e vi um debate entre Cíntia Chagas e Manuela d’Ávila, e resolvi me deter. Para minha surpresa, esse debate entre duas mulheres com pensamentos tão opostos, foi mais do que uma conversa sobre feminismo ou linguagem neutra. Foi um retrato vivo das diferenças existentes na sociedade brasileira, um país dividido, por assim dizer, entre pensamentos — um mais conservador, outro mais reformista. No entanto, o encontro entre ambas também retratou o quanto o exercício e o poder da escuta podem ser transformadores.
Cíntia e Manuela são, cada uma à sua maneira, mulheres de verbo afiado e convicções firmes. A primeira, conservadora, professora de português, defende a clareza da língua e a liberdade individual sem ideologias que, em sua visão, acabam afastando as pessoas das causas que pretendem defender. A segunda, reformista, fala de inclusão, de políticas públicas e da necessidade de repensar as estruturas que mantêm desigualdades. O tema da linguagem neutra inflamou o debate. Cíntia considera essa prática uma distorção da norma culta, uma pseudoinclusão que não resolve a exclusão real. Já Manuela a enxerga como uma tentativa simbólica de acolher quem não se sente representado pelas formas tradicionais de expressão. O embate, ao meu juízo, ultrapassou o campo linguístico, versando sobre a importância e o que significa alguém se sentir pertencido a uma sociedade. A língua, afinal, é o espelho da alma de um povo e, ao discutir as palavras, discutimos também o tipo de sociedade que queremos ser.
Todavia, o mérito maior do encontro foi outro: o diálogo em meio às diferenças. Em um tempo em que o debate público se converteu em arena de ataques, ver duas mulheres que pensam diferente, e, no entanto, se ouvem com respeito, já é um sinal de maturidade democrática. É possível discordar sem desumanizar o interlocutor, é possível argumentar sem gritar, ter firmeza sem hostilidade.
Esse é um aprendizado que vale para tudo, em especial para a política. No trânsito das ideias, como no trânsito das ruas, convivência é a palavra-chave. Se cada um insistir em dirigir apenas pela sua faixa ideológica, o engarrafamento é inevitável. O desafio é criar pontes: entre pensamentos, entre pessoas, entre mundos.
O debate revelou, no fundo, dois caminhos por uma mesma busca, para um mesmo destino: duas mulheres que pedem voz e lugar num país ainda marcado pelo patriarcalismo, pelo preconceito e pela violência contra a mulher. Uma luta que não cabe apenas nas palavras, mas precisa ganhar corpo em atitudes, políticas e relações mais humanas. Até porque a luta pelos direitos das mulheres, seja em que esfera for, não é privilégio dessa ou daquele corrente político ideológica, é de toda uma sociedade.
Pensar diferente, não é o problema, o verdadeiro problema é não saber ouvir. E talvez essa seja a grande lição do encontro entre Cíntia e Manuela: entre o verbo e o gesto, é o gesto que convence. Falar é importante, escutar é revolucionário.
Léo Mauro Xavier Filho






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